Inteligência Artificial

Corrida da IA entre EUA e China e as lideranças que os números revelam

Entenda quem está na frente na corrida da IA entre EUA e China, compare avanços em modelos, chips, custos e robótica e conheça o papel dos países nessa disputa.

calendar_month 06 de Outubro de 2026 person Olivia Baldissera

Os Estados Unidos têm mais investimento privado em inteligência artificial. A China lidera em volume de publicações científicas e patentes na área. Empresas americanas desenvolvem alguns dos modelos mais avançados, enquanto concorrentes chinesas ampliam o acesso a sistemas com preços menores. Escolher um vencedor da corrida da IA exige definir primeiro o que está sendo comparado.

Quem está na frente depende do critério. Capacidade de processamento, desempenho dos modelos, custo de uso e aplicação industrial revelam vantagens diferentes. Um país pode liderar em pesquisa e continuar dependente de componentes produzidos no exterior. Outro pode oferecer os sistemas mais capazes e enfrentar dificuldades para abastecer os centros de dados que os sustentam.

Os estudos e reportagens selecionados, considerando os acontecimentos até setembro de 2026, mostram uma disputa com lideranças distribuídas. Para profissionais de diferentes áreas, entender essas diferenças ajuda a avaliar fornecedores, custos e possibilidades de aplicação sem confundir anúncios com resultados.

Escola de IA

IA não é assunto só de quem programa

Aprenda a usar a inteligência artificial dentro do seu contexto de trabalho.

O que é a corrida da IA?

A corrida da IA é a disputa para desenvolver, fornecer e incorporar inteligência artificial à economia, à ciência e às atividades dos governos. Envolve empresas, universidades e Estados interessados tanto nas receitas da tecnologia quanto em sua influência sobre produtividade, segurança e relações internacionais.

Parte da competição acontece nos modelos de IA, sistemas treinados com dados para reconhecer padrões e realizar tarefas. Os grandes modelos de linguagem, por exemplo, aprendem padrões presentes em textos e conseguem produzir respostas, resumir documentos e auxiliar na programação. Seu desenvolvimento depende de pesquisadores, dados, investimento e capacidade de computação, isto é, recursos para executar cálculos.

Outra parte ocorre na infraestrutura. Chips são componentes eletrônicos que processam informações. Centros de dados, também chamados de data centers, reúnem servidores e equipamentos usados para treinar modelos e colocá-los em funcionamento. Treinamento é o processo de aprendizagem do sistema. Inferência é sua utilização posterior para gerar uma resposta ou executar uma tarefa.

Há ainda a competição pela adoção. Um modelo pode alcançar uma pontuação elevada em testes e ter uso restrito porque custa caro. Um concorrente com desempenho suficiente para determinadas atividades pode se espalhar mais rapidamente. Na indústria, o resultado depende também da integração com máquinas, robôs e processos produtivos.

Por isso, os indicadores precisam ser lidos separadamente. Investimento privado mede uma modalidade de financiamento. Patentes registram invenções protegidas legalmente. Downloads indicam circulação de modelos, mas não comprovam receitas ou uso contínuo. Cada medida esclarece uma dimensão da disputa e tem limites para explicar as demais.

Os avanços dos Estados Unidos na corrida da IA

Os Estados Unidos mantêm vantagem na combinação de capital privado, infraestrutura computacional e desenvolvimento de modelos de destaque.

Capital privado

Segundo o AI Index 2026, da Universidade de Stanford, o investimento privado americano em IA chegou a US$ 285,9 bilhões em 2025, contra US$ 12,4 bilhões na China.

A diferença ultrapassa 23 vezes, mas o próprio relatório ressalva que esses valores subestimam o financiamento chinês ao considerar apenas recursos privados. Fundos orientados pelo governo também apoiam o setor na China. Assim, o dado demonstra a liderança americana nessa categoria de investimento, sem oferecer uma comparação integral de todos os recursos mobilizados.

Desenvolvimento de grandes modelos de linguagem

Na produção de modelos classificados como relevantes pelo AI Index 2026, os EUA lançaram 59 em 2025, enquanto a China lançou 35. Essa classificação reúne sistemas considerados importantes para acompanhar a evolução da área. A quantidade ajuda a dimensionar a atividade dos laboratórios, embora não signifique que cada modelo americano supere um concorrente chinês.

O desempenho técnico também favorece empresas americanas em diferentes avaliações, com uma distância menor do que a ideia de superioridade permanente sugere. O AI Index registra que modelos dos dois países alternaram posições de liderança desde o início de 2025. Em março de 2026, o principal modelo da Anthropic estava à frente por apenas 2,7% na comparação apresentada pelo relatório.

A análise do J.P. Morgan, com dados atualizados até 8 de setembro de 2026, mantém os EUA à frente em capacidade dos modelos, mas destaca a aproximação chinesa. As duas fontes observam períodos e avaliações diferentes. Elas sustentam uma liderança americana disputada, cujo tamanho varia conforme o sistema e a tarefa analisados.

Infraestrutura computacional

Na infraestrutura, a vantagem é maior. O AI Index contabiliza 5.427 centros de dados nos Estados Unidos em 2025, mais de dez vezes o número de qualquer outro país. A Nvidia, empresa americana, ocupa posição central no fornecimento de chips para IA. Isso favorece a expansão dos recursos necessários ao desenvolvimento dos modelos.

Essa liderança depende de uma cadeia internacional de produção. A TSMC, de Taiwan, fabrica quase todos os chips de IA mais avançados, segundo Stanford. Projetar componentes e financiar sistemas nos EUA não elimina a dependência da fabricação no exterior.

Os controles americanos sobre exportações de chips e equipamentos dificultam o acesso chinês a essa infraestrutura. Em análise publicada pelo CSIS em março de 2025, Gregory C. Allen argumenta que as restrições podem retardar e desorganizar os esforços chineses, mas não interrompê-los. Em seu depoimento de dezembro daquele ano, ele identifica a diferença em recursos computacionais como uma das principais vantagens dos EUA.

O país também enfrenta limitações internas. A reportagem do g1 sobre os pedidos de cautela das empresas de IA reúne preocupações com energia, construção de centros de dados, retorno financeiro e segurança. São fatores que podem dificultar a continuidade da expansão, mesmo com disponibilidade de capital.

A cobertura da Exame sobre setembro mostra a aceleração dos agentes de IA, sistemas capazes de planejar e executar ações digitais com algum grau de autonomia. A competição americana envolve transformar capacidade técnica em serviços utilizados por pessoas e empresas. A velocidade de lançamento, porém, exige atenção à confiabilidade e à supervisão desses produtos.

Os avanços da China na corrida da IA

A China apresenta vantagens em pesquisa, circulação de modelos acessíveis e aplicação industrial.

Pesquisas científicas sobre IA

Segundo o AI Index 2026, o país lidera em volume de publicações científicas, citações e concessões de patentes em IA. As citações indicam que um trabalho foi mencionado por outras pesquisas, ajudando a observar sua presença na produção científica.

Em 2024, a China respondeu por 74,2% das patentes de IA concedidas no mundo. O relatório também identifica maior impacto das patentes americanas, mostrando que quantidade e influência tecnológica são medidas distintas. A liderança chinesa em registros não permite concluir que todas essas invenções terão maior valor econômico ou técnico.

Modelos de IA mais acessíveis

Nos modelos, o DeepSeek tornou visível uma capacidade que vinha sendo construída. A BBC relata que seu lançamento, em janeiro de 2025, questionou a expectativa de que apenas laboratórios americanos conseguiriam oferecer sistemas competitivos. A análise de Yasir Atalan, publicada pelo CSIS em julho de 2026, descreve os lançamentos chineses posteriores como parte de um movimento contínuo de aproximação.

Uma das estratégias é disponibilizar modelos de pesos abertos. Pesos são valores internos ajustados durante o treinamento que influenciam o funcionamento do sistema. Quando ficam disponíveis, desenvolvedores podem baixar o modelo e adaptá-lo, conforme as condições de sua licença. Isso não significa, necessariamente, acesso a todo o código ou aos dados usados para treiná-lo.

Segundo o CSIS, essa distribuição permite que provedores diferentes hospedem o mesmo modelo e concorram em preço. Também facilita seu uso em ambientes próprios de empresas. A tecnologia pode circular internacionalmente sem que cada solicitação precise passar pela infraestrutura do laboratório chinês que a desenvolveu.

A vantagem de custo precisa ser avaliada por tarefa. O J.P. Morgan observa que preços menores por token podem exagerar a economia obtida. Tokens são unidades de texto processadas pelo modelo, como palavras ou partes delas. Se um sistema usa mais unidades para concluir uma atividade, a diferença no preço unitário pode diminuir na conta final.

Baixar um modelo gratuitamente também não elimina gastos com processamento, energia e manutenção. Para uma organização, a comparação precisa considerar o custo de executar o trabalho e a qualidade do resultado. A análise do J.P. Morgan aponta ainda maior volume de tokens chineses na OpenRouter, plataforma que oferece acesso a diversos modelos, mas adverte que isso não equivale à liderança no mercado global.

Aplicação industrial da IA

Na aplicação industrial, a China tem uma vantagem apoiada em sua capacidade de fabricação. A BBC destaca a experiência chinesa na produção de eletrônicos e o apoio governamental à robótica. O AI Index confirma a liderança do país em instalações de robôs industriais, equipamentos que realizam tarefas em ambientes de produção.

A DW descreve a iniciativa chinesa AI Plus, voltada à incorporação de IA em setores como indústria, serviços e saúde. Já a reportagem da BBC de setembro acompanha a construção de centros de dados e a mobilização de pesquisadores. Esses movimentos combinam desenvolvimento dos sistemas com condições materiais para utilizá-los.

Na entrevista publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos, Dan Wang enfatiza essa articulação entre eletricidade, capacidade produtiva e aplicações industriais. Sua interpretação ajuda a compreender a estratégia chinesa, mas metas de expansão e expectativas de liderança precisam ser distinguidas de resultados comprovados.

Persistem dificuldades no acesso e na produção de chips avançados. Há também questões de censura e segurança destacadas pela DW. A possibilidade de instalar um modelo localmente amplia o controle sobre sua operação, mas não dispensa avaliação de suas respostas e limitações.

E-book sobre IA

Riscos e Desafios da Inteligência Artificial Generativa

Entenda como a IA generativa está transformando a sociedade, cultura, economia e o trabalho.

Como os outros países se posicionam na corrida da IA

Outros países ocupam posições relevantes em etapas específicas. Taiwan participa da fabricação dos chips por meio da TSMC. A BBC também destaca a importância da ASML, dos Países Baixos, no fornecimento de equipamentos necessários à produção dos semicondutores mais avançados, os componentes eletrônicos que incluem esses chips.

A Coreia do Sul lidera em patentes de IA por habitante, segundo o AI Index 2026. Esse indicador ajusta a comparação ao tamanho da população e revela uma concentração de atividade inventiva que o volume total de registros pode esconder.

Na adoção, Singapura e Emirados Árabes Unidos se destacam. O levantamento apresentado por Stanford registra uso de IA generativa, capaz de produzir conteúdos como textos e imagens, por 61% e 64% da população, respectivamente. Os Estados Unidos aparecem em 24º lugar, com 28,3%. Liderar o desenvolvimento de modelos não garante a maior proporção de usuários.

A União Europeia participa pela regulação. Na reportagem do g1, a Comissão Europeia defende que empresas comprovem a segurança dos serviços. O AI Index também aponta maior confiança global no bloco para regular IA do que nos EUA ou na China. Confiança regulatória, desempenho tecnológico e adoção são dimensões que podem favorecer atores diferentes.

Para países como o Brasil, os modelos abertos ampliam possibilidades de adaptação. O CSIS descreve como desenvolvedores latino-americanos podem utilizar sistemas chineses por provedores externos ou instalação local. Essa abertura oferece alternativas, embora permaneçam decisões sobre infraestrutura, proteção de dados e dependência de fornecedores.

A liderança na corrida da IA depende do resultado que se quer alcançar

O conjunto das fontes favorece os Estados Unidos em investimento privado, infraestrutura e desenvolvimento de modelos na fronteira de capacidade, expressão usada para os sistemas mais avançados disponíveis. Favorece a China em volume de pesquisa, patentes, instalações de robôs industriais e estratégias de distribuição acessível. Essas vantagens coexistem, com diferenças de tamanho e maturidade.

Para quem decide como usar IA no trabalho, a comparação deve partir da atividade pretendida. Um sistema adequado para apoiar programação pode não ser a melhor escolha para automatizar uma operação industrial. Preço, desempenho, controle dos dados e confiabilidade precisam ser avaliados em conjunto.

Compreender essa disputa amplia o repertório para analisar tecnologias e suas consequências profissionais, econômicas e sociais. Conheça os cursos de pós-graduação em Inteligência Artificial da Pós PUCPR Digital e encontre uma formação alinhada aos temas que você quer aprofundar.

Fontes

Sobre o autor

Olivia Baldissera