A cognição humana é um campo vasto e complexo, responsável por englobar um conjunto de habilidades fundamentais que possibilitam ao indivíduo interagir com o mundo. Entre essas capacidades, destacam-se a memória, a atenção, o raciocínio lógico, o pensamento crítico e a criatividade.
A memória permite o armazenamento e a recuperação de informações, constituindo a base para a aprendizagem. A atenção, por sua vez, possibilita o foco em estímulos relevantes em meio a uma multiplicidade de informações. O raciocínio e o pensamento crítico oferecem as ferramentas necessárias para analisar situações, resolver problemas e tomar decisões conscientes, enquanto a criatividade favorece a inovação e a geração de novas ideias.
Esses processos cognitivos não atuam isoladamente, mas de forma interdependente, formando um sistema dinâmico que dá suporte à aquisição, ao processamento e à aplicação do conhecimento em diferentes contextos. Além disso, a cognição é influenciada por fatores biológicos, emocionais, sociais e culturais, o que a torna singular em cada indivíduo. Um fator que vem influenciando a cognição humana é a tecnologia.
A utilização de sistemas de navegação por GPS, por exemplo, modificou a forma como exercitamos a orientação espacial. Da mesma maneira, as ferramentas de busca transformaram os padrões de recuperação da memória, enquanto as redes sociais, com a predominância de conteúdos de formato curto, têm sido associadas à diminuição da capacidade de atenção.
Mais recentemente, com o surgimento dainteligência artificial (IA), emergem novos desafios cognitivos, que afetam especialmente a aquisição e o processamento do conhecimento, o raciocínio, a aprendizagem, a criatividade e o pensamento crítico.
Como o uso da IA afeta a cognição humana
A IA tem emergido como uma tecnologia capaz de impactar em processos cognitivos fundamentais e de introduzir riscos significativos. Pesquisas recentes revelam que seu impacto se estende do raciocínio e da aprendizagem até a criatividade e o pensamento crítico, configurando um cenário ambivalente que exige análise cuidadosa.
Um estudo conduzido pela Universidade Carnegie Mellon, em parceria com a Microsoft, revelou que quanto maior a dependência da inteligência artificial para a execução de tarefas, menor era a capacidade de pensamento crítico dos participantes. De forma inversa, aqueles que utilizaram menos a tecnologia conseguiram preservar melhor seu desempenho cognitivo.
Os pesquisadores destacam que, embora o uso da IA seja frequentemente associado a ganhos de eficiência, essa narrativa pode ser enganosa e até mesmo apresentar riscos para a autonomia e a capacidade reflexiva dos indivíduos, mostrando que a promessa de produtividade imediata nem sempre se traduz em benefícios cognitivos a longo prazo.
Outros dados apontam que a IA pode influenciar diretamente a tomada de decisões, a autoconfiança e a vulnerabilidade à desinformação. O uso intensivo dessas ferramentas foi associado a escolhas menos criteriosas e a maior acomodação mental. Além disso, evidências apontam que usuários tendem a confiar excessivamente nos conselhos gerados por IA, mesmo quando estes contradizem informações disponíveis ou seu próprio julgamento, fortalecendo crenças equivocadas e ampliando a aceitação de notícias falsas.
Em experimentos com tarefas de escrita, constatou-se melhora significativa no desempenho imediato, mas sem correspondência no avanço conceitual ou na habilidade de compartilhar conhecimento.
Outro ponto de alerta diz respeito à atrofia de habilidades e a crescente dependência dessas ferramentas. Em campos como a programação, o suporte automatizado oferecido por geradores de código ou feedback de IA mostrou-se capaz de prejudicar a autonomia, enfraquecer a capacidade de resolução de problemas e tornar os usuários excessivamente dependentes.
Os efeitos da IA também se manifestam na criatividade. Embora escritores com menos habilidade consigam produzir narrativas mais originais com auxílio dessas tecnologias, observa-se uma redução da diversidade coletiva, já que os textos tornaram-se mais homogêneos.
Essa homogeneização sugere o risco de reforço de padrões repetitivos, limitando o pensamento divergente e, consequentemente, a inovação. A criatividade deve ser compreendida como uma habilidade que precisa ser exercitada, de modo que a dependência excessiva da IA pode enfraquecer seu desenvolvimento humano.
Outra função afetada é a memória. Alguns especialistas alertam para o risco de uma espécie de “amnésia digital”, ou seja, a perda da capacidade de memorizar e reter informações devido à terceirização do processamento cognitivo.
Estudos indicam que atividades como resumir o material e realizar escrita reflexiva subsequente podem favorecer a memória, ao permitir que novos conhecimentos se integrem aos já existentes. No entanto, na prática cotidiana costuma ser realizada de forma passiva, muitas vezes sem engajamento profundo com o conteúdo, o que reduz sua eficácia.
Pesquisas recentes sugerem que a confiança exagerada na IA também reduz o engajamento crítico e promove o chamado “descarregamento cognitivo”, processo em que tarefas intelectuais passam a ser delegadas à tecnologia, comprometendo a autorregulação e a reflexão. Tais efeitos tornam-se ainda mais evidentes no campo educacional, onde dificuldades já existentes são amplificadas pela dependência de suporte tecnológico.
>>> Leia também:
- Inteligência artificial: aliada ou vilã da saúde mental?
- Relacionamentos parassociais na era digital: a Inteligência Artificial (IA) como fonte de afeto
- As principais funções dos processos cognitivos
Como lidar com a dependência e preservar a cognição humana
Para lidar com a dependência cognitiva em relação à inteligência artificial, é essencial adotar abordagens que promovam a autonomia intelectual e o engajamento ativo com as tarefas. Deve-se cultivar o hábito da reflexão crítica sobre as informações fornecidas por sistemas de IA, avaliando sua validade e relevância antes de aceitá-las como verdade.
É recomendável alternar entre o uso de ferramentas digitais e métodos tradicionais de aprendizagem, como a escrita de resumos, anotações à mão, esquemas conceituais e exercícios de memorização, de modo a reforçar a retenção de conhecimento e o raciocínio independente.
O incentivo à resolução de problemas sem apoio tecnológico imediato também fortalece as funções cognitivas. O desenvolvimento de hábitos de verificação, questionamento e análise própria ajuda a manter habilidades de raciocínio, criatividade e pensamento crítico, prevenindo a sobrecarga de confiança na tecnologia e promovendo uma interação mais equilibrada e consciente com sistemas de IA.
Perguntas frequentes
É o conjunto de processos mentais que permite ao ser humano adquirir, processar, armazenar e aplicar conhecimento. Inclui memória, atenção, raciocínio lógico, pensamento crítico e criatividade, que atuam de forma interdependente para interpretar o mundo e tomar decisões.
As funções centrais da cognição são: memória (armazenar e recuperar informações), atenção (foco em estímulos relevantes), raciocínio lógico (resolver problemas), pensamento crítico (avaliar e questionar ideias) e criatividade (gerar soluções inovadoras).
Aspectos biológicos (genética, idade), emocionais (estresse, motivação), sociais (convivência, cultura) e tecnológicos (uso de dispositivos, IA) afetam diretamente a capacidade de raciocinar, aprender e criar.
A cognição é o conjunto de processos mentais que possibilitam aprender, pensar e lembrar. Já a inteligência é a capacidade de aplicar esses processos para resolver problemas, adaptar-se e criar soluções. Em resumo, cognição é o “como” pensamos; inteligência é o “quão bem” usamos esse pensamento.
É a alteração ou declínio de funções como memória, atenção e raciocínio. Pode ser temporária, causada por estresse, falta de sono ou depressão, ou estar associada a doenças neurológicas, como Alzheimer e demências.
Ferramentas digitais mudaram a forma de memorizar, se orientar e manter a atenção. Por exemplo, GPS reduz o exercício da orientação espacial, conteúdos curtos em redes sociais diminuem a capacidade de foco e o uso intenso de IA pode enfraquecer o pensamento crítico e a autonomia.
A IA pode ampliar a produtividade e ajudar na aprendizagem, mas também gera riscos: excesso de confiança nas respostas automáticas, “amnésia digital” (dependência da máquina para lembrar informações), menor capacidade de reflexão e homogeneização das ideias criativas.
Praticar aprendizado ativo, como escrever resumos e resolver problemas sem apoio tecnológico imediato; alternar métodos digitais e analógicos; e avaliar criticamente informações fornecidas por IA são práticas que mantêm memória, raciocínio e pensamento crítico em bom funcionamento.
Fontes
💡 Quer saber mais sobre IA e cognição humana? Confira as fontes consultadas para a elaboração deste artigo:
- Lee, Hao-Ping et al. The impact of generative AI on critical thinking: Self-reported reductions in cognitive effort and confidence effects from a survey of knowledge workers. In: Proceedings of the 2025 CHI Conference on Human Factors in Computing Systems. [S. l.], 2025. p. 1-22.
- La Nación. Sedentarismo cognitivo: o que acontece quando deixamos a inteligência artificial pensar por nós. O Globo, 29 mar. 2025. Disponível em: https://oglobo.globo.com/economia/tecnologia/noticia/2025/03/29/sedentarismo-cognitivo-o-que-acontece-quando-deixamos-a-inteligencia-artificial-pensar-por-nos.ghtml . Acesso em: 16 set. 2025.
- Silveira, Ricardo. Uso crescente da IA está prejudicando nosso senso crítico e criatividade. UOL Tilt, 3 jun. 2025. Disponível em: https://www.uol.com.br/tilt/noticias/redacao/2025/06/03/uso-crescente-da-ia-esta-prejudicando-nosso-senso-critico-e-criatividade.htm
- Singh, Anjali et al. Protecting human cognition in the age of AI. arXiv preprint, arXiv:2502.12447, 2025.
Sobre o autor
Tassiane Valin