01/06/2021 17:18:08

5 mudanças no mundo do trabalho até 2050

Como a automação impactará o seu emprego? Descubra as principais mudanças no mundo do trabalho que devem acontecer até 2050 e prepare-se para o futuro.

Já é fato no meio corporativo e acadêmico que uma série de profissões deixarão de existir nas próximas décadas. Relatórios de organizações internacionais como a ONU, o Fórum Econômico Mundial e a OCDE atestam isso, como uma espécie de alerta para governos e classes profissionais.

A questão em debate agora é: como será o mundo do trabalho onde atuarão estes profissionais do futuro?

Futurólogos, historiadores, sociólogos e economistas se debruçam sobre esta pergunta para oferecer respostas que ajudem profissionais, governos e corporações a se prepararem para o que está por vir. Nos últimos anos, uma voz se destacou no debate e se tornou referência mundial no assunto. É o historiador israelense Yuval Noah Harari, autor dos livros “Sapiens”, “Homo Deus” e "21 lições para o século 21".

A seguir, você confere um resumo das principais ideias de Harari sobre o tema, abordadas nos capítulos 1 e 2 do livro "21 lições para o século 21". Ele prevê 5 mudanças no mundo do trabalho que devem acontecer até 2050. Vamos lá?

O que é o mundo do trabalho

Antes de prosseguirmos, precisamos ter em mente o significado deste conceito. O mundo do trabalho é um conjunto de relações que nascem a partir da atividade humana de trabalho. Ele reúne fatores que se relacionam entre si, tais como:

  1. A atividade humana de trabalho;
  2. O espaço onde acontece esta atividade;
  3. As prescrições e normas que regulam as relações de trabalho;
  4. Os produtos e serviços resultantes do trabalho;
  5. Os discursos intercambiados neste processo;
  6. As técnicas e tecnologias envolvidas na atividade desenvolvida;
  7. A comunicação entre as partes envolvidas no processo.

O mundo do trabalho ocupa um lugar importante na sociedade, pois reúne a maior parte da atividade humana. O termo abrange outros conceitos relacionados ao trabalho, como mercado, relações de trabalho, vínculo empregatício, cultura organizacional, salário, legislação trabalhista, tecnologia, saúde mental, capital e por aí vai.

Por sua vez, o trabalho é um processo invisível de transformação de algo em outra coisa com o objetivo de criar algum benefício para si e para outra pessoa. Este "algo" pode ser um produto ou serviço, que depende do conhecimento instituído e da experiência pessoal de um ou vários profissionais para existir.

A diferença entre mundo do trabalho e mercado de trabalho

Os termos não são sinônimos. O mercado de trabalho é um dos conceitos que está sob o guarda-chuva do mundo do trabalho, relacionado à demanda de atividade laboral por parte das organizações. Ou seja, ele se refere à interação entre mão de obra e empregadores, que oferecem vagas a serem preenchidas. O termo pode ser usado tanto na iniciativa privada quanto no serviço público, nos mais diferentes setores da economia e áreas de atuação profissional.

Como será o mundo do trabalho em 2050

O mundo do trabalho em 2050 será totalmente transformado pelos avanços da Inteligência Artificial (IA) e da biotecnologia. Profissões que exigem uma menor qualificação deixarão de existir devido à automação, ao mesmo tempo que a demanda por profissionais humanos altamente especializados aumentará. O medo de se tornar irrelevante substituirá o da exploração entre os trabalhadores.

É preciso lembrar que a automação já era vista como uma ameaça aos empregos no século XIX, com o avanço da Revolução Industrial nos países ocidentais. No entanto, não houve um desemprego em massa pois para cada função perdida para uma máquina pelo menos uma nova era criada.

O que muda é o impacto da IA no mundo do trabalho. Yuval Noah Harari explica que o ser humano tem dois tipos de habilidades, uma física e outra cognitiva. As primeiras revoluções industriais substituíram as pessoas por máquinas no quesito trabalho manual, enquanto atividades que exigiam habilidades cognitivas continuaram restritas aos seres humanos.

Até então, as máquinas não conseguiam aprender, analisar, comunicar e interpretar emoções. A IA veio alterar este cenário, por meio do machine learning, e já começa a desempenhar estas habilidades tão bem quanto uma pessoa.

Apesar de fazer previsões, Yuval Noah Harari alerta que é impossível ter certeza absoluta de como será o mundo do trabalho em 2050. Para o historiador, a única coisa certa é que muito do que é ensinado nas escolas de hoje será irrelevante daqui algumas décadas.

Em "21 lições para o século 21", ele explica o motivo. Hoje estamos acostumados a dividir nossas vidas em duas fases principais, uma voltada ao aprendizado e outra para o trabalho. Na primeira, construímos uma identidade estável e adquirimos habilidades comportamentais e técnicas. Elas serão empregadas na fase do trabalho, quando contamos com elas para nos guiarmos no mundo, pagarmos nossas contas e ainda contribuirmos com a sociedade.

Yuval Harari prevê que, no mundo do trabalho de 2050, esta divisão estará ultrapassada. O novo modelo que as pessoas deverão usar como guia é o do lifelong learning, ou seja, elas devem continuar a aprender ao longo da vida. Para permanecer relevante no mundo do trabalho, o profissional deverá se reinventar várias vezes, mesmo depois dos 50 anos de idade.

No século 21, estabilidade é um luxo. Quem se apegar a uma identidade imutável, a um único emprego e a uma visão de mundo permanente ficará para trás.

5 mudanças no mundo do trabalho até 2050

Os pontos relacionados ao futuro do trabalho discutidos em "21 lições para o século 21" por Yuval Noah Harari não são respostas definitivas nem são consenso entre especialistas, conforme explica o próprio autor. Porém eles oferecem material para refletirmos sobre nossa carreira profissional, como enxergamos o valor do trabalho em nossas vidas e como nos posicionamos no mercado de trabalho.

Confira a seguir 5 mudanças no mundo do trabalho que podem acontecer até 2050.

1. Humanos trabalharão lado a lado com a IA

Como escrito anteriormente, a inteligência artificial fará com que profissões deixem de existir, enquanto novas irão surgir. Para continuar relevante no mundo do trabalho de 2050, o profissional deverá parar de tentar competir com a IA e se concentrar nos seus serviços e alavancagem.

O motivo está nas habilidades não humanas da IA, que tornam a diferença entre a tecnologia e o trabalhador uma questão qualitativa. As habilidades não humanas da inteligência artificial são:

  • Conectividade: é mais fácil integrar computadores em uma rede flexível do que seres humanos. Por mais sintonizados que os integrantes de uma equipe estejam, eles não conseguem competir com a sincronicidade de várias máquinas.
  • Capacidade de atualização: por estarem conectados em rede, computadores podem ser atualizados ao mesmo tempo, de uma maneira rápida. Já a atualização de uma classe profissional humana inteira leva anos, como é o caso da medicina. Quando um novo medicamento ou uma nova doença é descoberta, é quase impossível atualizar todos os médicos do mundo sobre estes avanços científicos.

Por isso, ao se falar do mundo do trabalho de 2050, é mais adequado pensar na substituição da mão de obra humana por uma rede integrada, e não por milhões de robôs individuais.

Mas então como irão surgir as profissões do futuro?

Para ilustrar esta situação, Yuval Noah Harari cita como exemplo as Forças Armadas dos Estados Unidos, que passaram a usar drones na intervenção à Síria. A operação de cada um deles demanda 30 pessoas capacitadas na tecnologia, enquanto a análise dos dados coletados pelo dispositivo necessita de mais 80.

Ou seja, o mundo do trabalho de 2050 será caracterizado pela colaboração entre humanos e IA. Contudo, este cenário colaborativo exigirá altos níveis de especialização dos profissionais. Uma mão de obra desqualificada resultará em altas taxas de desemprego, por isso uma das soluções propostas em "21 lições para o século 21" é apostar na criação de novos empregos humanos do que tentar ensinar novas habilidades para as profissões que irão surgir.

2. Novas profissões irão surgir cada vez mais rápido

A IA e a robótica não vão parar de se desenvolver, o que exigirá dos profissionais do futuro a capacidade de se adaptar rapidamente para exercer novos empregos. A criação deles será recorrente, bem como o retreinamento das pessoas que irão os exercer.

Se hoje poucos profissionais esperam exercer as mesmas funções e trabalhar na mesma empresa até se aposentarem, em 2050 a categoria profissional será mais fluida, pois trabalhadores transitarão por diferentes profissões ao longo da vida.

Esta transição demandará tempo, pois a pessoa precisará aprender novas habilidades. Uma solução apontada pelo autor de "21 lições para o século 21" é a intervenção de governos, por meio da regulação do setor de tecnologia. O Estado também deveria investir em um setor de educação vitalício – afinal, as pessoas precisarão continuar a estudar para serem relevantes no mundo do trabalho – e em uma rede de proteção para o trabalhador enquanto ele estiver no período de transição. Até ele adquirir as habilidades para exercer uma nora profissão, ele receberia apoio financeiro do governo para se sustentar.

3. Os "inúteis", uma nova classe do mundo do trabalho

A sociedade de 2050 será a do pós-trabalho, o que fará com que as pessoas não se definam mais por suas profissões nem busquem no emprego uma fonte de realização pessoal. Ainda, haverá trabalhadores que não serão qualificados o suficiente para exercer as funções decorrentes dos avanços da inteligência artificial e da automação.

Seja qual for o motivo, parte da sociedade integrará uma nova classe do mundo do trabalho chamada por Yuval Noah Harari de “inúteis”, por não exercerem uma atividade laboral nesta nova realidade.

4. Além do desemprego, a saúde mental será um desafio no novo mundo do trabalho

Mudanças sempre são estressantes e afetam o equilíbrio emocional de muita gente – o cotidiano acelerado que vivemos hoje e que já tornou os transtornos de saúde mental um problema global está aí para provar. Elas marcarão o mundo do trabalho de 2050 devido à necessidade dos profissionais de se reinventarem a todo momento.

Será que todas as pessoas serão capazes de lidar com a volatilidade do mercado de trabalho e das carreiras profissionais?

Para Yuval Noah Harari, provavelmente técnicas de redução de estresse como psicoterapia, medicação e mindfulness entrem na rotina dos profissionais do futuro para que eles consigam lidar com as mudanças no mundo do trabalho.

A falta de energia mental será um dos motivos que levará alguém a integrar a "classe dos inúteis", não apenas a falta de emprego e de educação adequada.

5. Governos terão que recorrer à renda básica universal (RBU)

O mundo do trabalho de 2050 pode sofrer ao mesmo tempo de altos níveis de desemprego e de escassez de mão de obra qualificada. Para lidar com este cenário, governos deverão interferir para garantir a sobrevivência física e bem-estar psicológico da população. Uma solução aventada pelo autor de “21 lições para o século 21” é a renda básica universal (RBU).

A proposta da RBU é a tributação de bilionários e big techs que controlam os algoritmos e robôs. O valor obtido seria usado para prover as necessidades básicas de cada indivíduo, dentro e fora do território nacional. Os Estados Unidos, por exemplo, ao automatizarem a produção das fábricas que mantêm em Bangalore, deverão arcar com o benefício oferecido aos bangalorianos que perderam seus empregos para a IA. Para Harari, apesar de este ser o cenário ideal, é praticamente impossível que ocorra, por desagradar o eleitorado americano.

Outra ideia atrelada à RBU é incluir mais atividades humanas na categoria de "emprego", como o cuidado com crianças e idosos – tarefas que dificilmente serão automatizadas para Harari. Os salários dos profissionais que exerceriam estes novos empregos, como pais, mães, filhos e filhas, seriam custeados pelo Estado.

Mais uma alternativa para proteger o cidadão apontada pelo historiador é o subsídio público de serviços básicos universais, como educação, saúde e transporte. Harari frisa que todas as soluções têm vantagens e desvantagens e não são uma resposta definitiva para as questões decorrentes das mudanças no mundo do trabalho.

Como se adaptar às mudanças do mundo do trabalho

Como já abordamos neste artigo, um dos principais motores de transformação do mundo do trabalho é a inteligência artificial. Em artigo publicado no The Guardian em 2017, Yuval Noah Harari explica que a principal questão não será a falta de emprego, pois novas funções surgem paralelamente ao desenvolvimento das novas tecnologias – como aponta o relatório da Cognizant, consultoria especializada em digitalização nas organizações, que listou as 21 carreiras do futuro que podem surgir até 2030.

O problema crucial será a adaptação de trabalhadores a empregos em que humanos performem melhor que algoritmos. Por isso, em “21 lições para o século 21”, Harari defende que chegou a hora de focar no aprendizado de outras habilidades desde já e, assim, estar pronto para lidar com as mudanças do mundo do trabalho.

Exatamente pelo fato do futuro ser incerto, o historiador aconselha que os profissionais comecem a investir no desenvolvimento de equilíbrio mental, da inteligência emocional e da resiliência. Estes são alguns exemplos de soft skills, que já são uma demanda atual do mercado de trabalho.

Conheça as principais soft skills e como desenvolvê-las.

Para aprimorar suas soft skills desde já, você pode colocar em prática estas 7 dicas. Se quiser mais informações sobre cada uma delas, leia este artigo que preparamos sobre o assunto.

  1. Busque autoconhecimento;
  2. Alinhe as expectativas sobre seu cargo com seu gestor;
  3. Crie o hábito de pedir feedbacks para seus colegas de trabalho;
  4. Exercite a escuta ativa e reflita sobre o que os outros têm a dizer;
  5. Arrisque-se em novos projetos em que você possa exercer uma função de liderança;
  6. Não pare de estudar. Procure leituras interessantes, cursos rápidos e especializações para aprimorar suas habilidades;
  7. Tenha disciplina e paciência. Soft skills não são desenvolvidas da noite para o dia.

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sobre o autor

Olívia Baldissera

Analista de conteúdo da Pós PUCPR Digital. Jornalista e historiadora apaixonada pelo estudo.

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