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— Beth Saad, professora titular sênior da ECA-USP.
A desinformação é um dos maiores desafios estruturais da sociedade contemporânea. Alimentada pela velocidade das redes sociais, pela sofisticação das ferramentas de inteligência artificial generativa e pela polarização política crescente, a distorção deliberada dos fatos ameaça a saúde pública, a democracia e a confiança nas instituições.
Para entender como o jornalismo pode responder a esse cenário, conversamos com Beth Saad, professora titular sênior da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e coordenadora do Grupo de Pesquisa COM+.
Pesquisadora de referência nas áreas de tecnologias digitais, transformação digital e estratégias de mídia, Beth Saad falou sobre os mecanismos da desinformação, o papel das plataformas, a relação da inteligência artificial com o ecossistema informativo e o futuro do jornalismo.
A entrevista fez parte da programação da Semana da Comunicação e Marketing, realizada entre os dias 6 e 10 de abril. O evento reuniu grandes especialistas para falar sobre as temáticas mais urgentes do meio da comunicação, que também são abordadas nos cursos da Pós PUCPR Digital .
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Acompanhe a entrevista a seguir. As falas foram editadas para dar mais clareza e fluidez na leitura.
Beth Saad: Antes de tudo, é importante distinguir dois conceitos que frequentemente se confundem. Em inglês, temos misinformation , que se refere à falta ou ausência de informação, e disinformation , que é a alteração deliberada da verdade. Quando falamos em desinformação, estamos nos referindo a este segundo caso: a manipulação intencional dos fatos.
A ideia de desinformar não é nova. Ela remonta ao próprio surgimento da imprensa e, historicamente, sempre esteve ligada às camadas do poder. O que muda agora é que o ambiente digital oferece instrumentos facilitadores para a distorção de fatos em escala jamais vista. Em especial a internet e todos os aprimoramentos que ela trouxe, como os sistemas de comentários, a viralização de conteúdos e a sofisticação na produção de mensagens.
Esse processo se acelerou a partir de 2014 e 2015. A campanha eleitoral de Barack Obama foi um divisor de águas, não pela desinformação, mas pelo uso intensivo de recursos digitais para comunicação política.
A partir de 2017 e 2018, as mesmas ferramentas que permitem informar com qualidade passaram a ser usadas sistematicamente para distorcer fatos. Grupos antagônicos, em contextos de forte polarização social e política, encontraram nas plataformas digitais o ambiente ideal para disseminar conteúdo desinformativo em larga escala.
Beth Saad: Toda nova tecnologia amplifica tendências já existentes, e com a inteligência artificial generativa não foi diferente. A partir de 2022, com o lançamento gratuito do ChatGPT, ocorreu um boom rápido na adoção dessas ferramentas por um público muito mais amplo.
Os chamados modelos de linguagem de grande escala (LLMs), sejam gratuitos ou pagos, produzem respostas a partir de dois insumos básicos: o que está disponível na internet e o comando dado pelo usuário, o famoso prompt.
Um ponto técnico importante: os modelos gratuitos indexam informações disponíveis na rede até uma data de corte, geralmente 2022 ou 2023, e não capturam conteúdos mais recentes, a menos que o usuário utilize uma versão paga. Isso significa que as versões gratuitas são mais suscetíveis a reproduzir informações desatualizadas ou distorcidas.
Mas o ponto central é outro: a inteligência artificial generativa, por si só, não tem capacidade de disseminar desinformação de forma autônoma. Isso só ocorre quando há uma intencionalidade humana do lado de cá, seja da própria mídia, das plataformas, de cidadãos com agenda ideológica ou de grupos organizados para distribuir conteúdo distorcido.
A ferramenta potencializa, mas a decisão de desinformar continua sendo humana.
Beth Saad: Estamos diante de um embate de negócios complexo com pelo menos três camadas.
Primeiro, há a disputa pela distribuição e visibilidade: hoje, pesquisas mostram que as pessoas buscam notícias primeiro pelo Google ou pelo Instagram, e não diretamente em sites de veículos jornalísticos. Para aparecer bem posicionado nos resultados de busca, muitas vezes é preciso pagar, o que força as empresas de mídia a adaptar sua produção às lógicas das plataformas.
Num segundo nível, quando a IA generativa entra em cena, a disputa se intensifica. Ferramentas como o ChatGPT, assim como as demais plataformas de IA, precisam de dados de qualidade para gerar bons resultados. Por isso, empresas como Google e Microsoft têm buscado acordos individuais com veículos jornalísticos para acessar seus arquivos de notícias atualizados. São negociações caso a caso, que envolvem valores e escolhas editoriais.
O resultado é um cenário em que a empresa jornalística precisa se fazer presente não apenas nos resultados de busca tradicionais, mas também nas respostas geradas pelas IAs. Isso tudo envolve negócios e valores que, muitas vezes, passam despercebidos pelos cidadãos comuns, mas que têm impacto direto na qualidade da informação que consumimos.
Beth Saad: Precisamos separar três realidades muito distintas. As grandes empresas jornalísticas consolidadas possuem processos internos rigorosos de verificação da informação. Checar antes de publicar é parte obrigatória do trabalho jornalístico sério. Isso ocorre com relativa tranquilidade nos veículos de maior credibilidade.
Ao lado disso, existe um conjunto de veículos exclusivamente digitais, os chamados pure players, em que a qualidade é variável.
E há ainda um terceiro grupo: marcas que se apresentam como jornalísticas, mas que existem justamente para desinformar. Sua função declarada, ainda que não explícita, é a distorção. Para isso, utilizam técnicas sofisticadas: compra de audiência, uso estratégico de influenciadores, criação de aparência de legitimidade.
Diante desse cenário, o jornalismo legítimo tem precisado ampliar seus próprios processos. É nesse contexto que surgem iniciativas de fact-checking, como a Coalizão Comprova, a Agência Lupa e entidades como a IFCN, a Rede Internacional de Verificação de Fatos. São respostas institucionais necessárias para combater a desinformação organizada.
Beth Saad: O maior exemplo recente, sem dúvida, foi o papel do jornalismo durante a pandemia de Covid-19. Diante de um governo federal que adotou estratégias deliberadas de disseminação de desinformação, inclusive por parte do Ministério da Saúde, as principais empresas jornalísticas brasileiras formaram uma coalizão inédita. Em vez de competir entre si, atuaram como um conjunto unificado.
Esse grupo foi a campo buscar os dados reais: taxas de contágio, óbitos, eficácia das vacinas. Esse trabalho coletivo foi fundamental para conter o pânico gerado por notícias falsas, especialmente em momentos críticos como o debate sobre a imunização.
A iniciativa mostrou que, quando o jornalismo age de forma articulada e comprometida com a verdade, ele tem capacidade real de enfrentar a desinformação.
Outro exemplo mais recente é a cobertura sobre feminicídios. O jornalismo tem atuado de forma cada vez mais consistente para esclarecer a população, contextualizar os dados e combater narrativas que minimizam ou distorcem essa realidade.
Temas que antes eram tratados de forma marginal ganharam espaço e profundidade nas coberturas jornalísticas, e isso faz diferença.
Beth Saad: Existe um relatório recente da Reuters Institute, disponível publicamente no site da organização, sobre o futuro do jornalismo nos próximos dez anos.
Ele apresenta quatro cenários possíveis, e todos eles têm uma conclusão comum: o elemento humano na construção e no relato dos acontecimentos continua sendo fundamental. A inteligência artificial não substitui o jornalista; ela exige que ele seja mais capacitado.
O jornalista de hoje precisa se instrumentalizar. Não apenas por vocação, mas por necessidade. É preciso saber conviver com essas tecnologias, entender como funcionam, conhecer seus pontos cegos e suas potencialidades.
Ao mesmo tempo, é preciso cultivar a empatia, a presença na sociedade e a capacidade de explicar o que está acontecendo de forma que as pessoas se reconheçam naquilo que leem.
Quando dizem que o jornalismo vai morrer, eu discordo firmemente. Pelo contrário, nunca foi tão necessário. Aliás, tenho repetido uma frase que sempre provoca reação: mande seu filho fazer jornalismo.
A desinformação é a disseminação intencional de informações falsas ou distorcidas com o objetivo de enganar, manipular opiniões ou influenciar decisões.
A desinformação envolve manipulação deliberada da verdade, enquanto a misinformation refere-se à disseminação de informações incorretas sem intenção de enganar.
A velocidade de compartilhamento, os algoritmos de engajamento e a facilidade de produção de conteúdo digital ampliam a circulação de desinformação em larga escala.
A inteligência artificial potencializa a criação e disseminação de conteúdos, mas a desinformação depende da ação humana para ser direcionada e utilizada com intenção de manipular.
Não. A desinformação existe desde o surgimento da imprensa, mas ganhou escala e sofisticação com o ambiente digital e as novas tecnologias.
A desinformação afeta a democracia, compromete a saúde pública, enfraquece a confiança nas instituições e dificulta a tomada de decisões informadas.
Sim. O jornalismo profissional atua com verificação de fatos, apuração rigorosa e contextualização, sendo essencial para reduzir os impactos da desinformação.
Por Redação
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