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Djamila Ribeiro: “Precisamos reivindicar uma multiplicidade de vozes”

Olivia Baldissera • 27 de março de 2025

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    A ativista, escritora e pesquisadora Djamila Ribeiro foi responsável por popularizar o conceito de lugar de fala no Brasil, ao sistematizá-lo em livro homônimo de 2019. 


    Ela detalhou a definição desse conceito na aula gratuita Jornada da Mulher: Reflexões sobre Lugar de Fala, promovida pela Pós PUCPR Digital em 26 de março. 


    O evento online marcou o lançamento do curso Jornada da Mulher: Estratégias para Realização e Crescimento, que também conta com Djamila Ribeiro como professora. 

    A group of women are standing next to each other and smiling.

    As principais ideias apresentadas pela escritora na aula foram: 


    • Lugar de fala é pensar em lugares sociais, ou seja, não é o que se fala, é de onde se fala. É um conceito que auxilia na investigação de grupos invisibilizados e na refutação de categorias universais que não dão conta de pensar a realidade. Sempre deve ser analisado a partir de uma perspectiva interseccional. 
    • Mulheres brancas e mulheres negras sempre produziram conhecimento, mas foram invisibilizadas por uma sociedade patriarcal, o que gera a ilusão de que elas começaram uma produção intelectual só recentemente. 
    • O conceito de outro proposto por Simone de Beauvoir e aprofundado por Grada Kilomba ajuda a entender o o que é lugar de fala, ao questionarem classificações universais como “mulher” e “negro”. 
    • A interseccionalidade é essencial para nomear realidades e entender opressões simultâneas, como as enfrentadas por mulheres negras. Ela torna visíveis experiências, o que contribui para reivindicar políticas públicas. 
    • Se bem utilizadas, as redes sociais contribuem para o debate sobre lugar de fala. Mas elas devem ser regulamentadas e responsabilizadas pela disseminação de discursos de ódio. 


    Confira a seguir um resumo da transcrição da aula de Djamila Ribeiro sobre lugar de fala. O conteúdo foi organizado no formato de perguntas e respostas para dar mais fluidez à leitura. 


    Bom aprendizado! 

    O que é lugar de fala? 

    Djamila Ribeiro: Lugar de fala é pensar fundamentalmente em lugares sociais. Quais são as consequências de partir de determinado lugar social? Compreender como que essas consequências se manifestam na nossa sociedade, que fazem com que nós não estejamos em determinados espaços. 


    Nós [mulheres negras] não estamos presentes como deveríamos nas bibliografias dos cursos. Não é porque somos menos inteligentes, porque isso seria legitimar as teorias racistas do século 19. Nós não estamos porque partimos de um lugar social marcado por profundas desigualdades e que não conferem oportunidades iguais. 


    Sempre é importante pensar o lugar de fala por uma perspectiva interseccional. As categorias não são universais, não podemos reproduzir o discurso hegemônico. 


    Por fim, temos que pensar da perspectiva do Sul do mundo. Por partirmos desse lugar, desse lugar social, geográfico e político, as nossas produções têm muito mais chances de serem expropriadas. 


    Esses processos de apropriação e de extrativismo epistemológico e cultural fazem com que nosso pensamento não seja colocado como merece. Nosso pensamento segue sendo hierarquizado dentro desse esquema, dessas estruturas, o que impede que acessemos determinados espaços. 

    Como o lugar de fala ajuda a entender a invisibilização das mulheres na história?

    Djamila Ribeiro: É importante pensar o lugar de fala para contrapor uma invisibilização de determinadas produções. Muitas vezes, as pessoas falam: “As mulheres brancas e as mulheres negras não tinham uma produção intelectual nessa época”. Mas isso é um equívoco. 


    Por exemplo, Olympe de Gouges, uma intelectual francesa, escreveu em 1791 a “Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã”. A obra foi escrita para contrapor o “Contrato Social” de Rousseau, porque, na visão da autora, o filósofo não havia incluído a mulher no seu pensamento. 


    Porém, quando eu estudei filosofia na graduação, eu não aprendi sobre isso. Eu também não aprendi sobre Sojourner Truth, uma mulher negra que nasceu escravizada e depois conseguiu a sua liberdade. 


    Em 1841, na Convenção pelos Direitos das Mulheres em Ohio, Sojourner Truth fez um discurso que é considerado a base do feminismo negro. O discurso “Eu não sou uma mulher”, inclusive, dá nome ao primeiro livro de Bell Hooks, publicado em 1981. 


    Então, nós temos mulheres brancas e negras pensando há muito tempo, em séculos passados, e que foram apagadas pela história. O lugar de fala também nos ajuda a entender que apagamento aconteceu justamente por elas partirem de um outro lugar social. 

    Como o conceito do outro ajuda a entender o que é lugar de fala? 

    Djamila Ribeiro: O clássico “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, é uma obra importantíssima para a filosofia e para a teoria feminista. No volume um, ela traz o que os filósofos haviam falado sobre as mulheres ao longo da história. 


    Aristóteles disse que as mulheres sofriam de uma certa deficiência natural. Já autores como Santo Agostinho e São Tomás de Aquino vão dizer que a mulher é um homem incompleto, um ser ocasional, um animal que não é firme nem estável. 


    Esses grandes filósofos criaram uma espécie de ontologia do feminino, como se todas as mulheres compartilhassem uma mesma essência, como se todas fossem homogêneas. A mulher não era considerada um sujeito cognoscente, não era considerada sequer sujeito. 


    A partir de “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir, podemos pensar no conceito do outro, que nos ajuda a refletir sobre o que é lugar de fala. 


    Beauvoir explica que a mulher não é pensada a partir de si mesma, ela é pensada a partir do homem, em oposição ao homem. Na tradição masculina patriarcal, a mulher sempre foi colocada como o outro, como objeto, não como sujeito. 


    Mas, quando vamos para a teoria racial crítica e aos estudos decoloniais, vemos que a população negra foi tratada como o outro também. 


    A imposição colonial criou a categoria “negro”. Antes dos processos de escravização, éramos vários povos em África. Agora o negro é uma categoria homogênea, como se tivesse uma essência atribuída a todos, numa similaridade em relação a categoria “mulher”. 


    É uma categoria que retira a humanidade das pessoas negras. É o negro sempre em oposição ao que é o branco, sempre como inferior, sempre como negativo. 

    Quais as contribuições das feministas negras para o conceito de lugar de fala? 

    Djamila Ribeiro: As feministas negras vão questionar como falar sobre sujeitos que entrecruzam opressões. No livro “Memórias da Plantação”, Grada Kilomba diz que a mulher negra é o outro do outro. Ela aprofunda a análise de Simone de Beauvoir com uma perspectiva interseccional, afirmando que a mulher negra seria essa antítese de branquitude e de masculinidade. É uma outra categoria que coloca essa mulher num lugar maior de invisibilidade. 


    E por que que tudo isso tem a ver com o lugar de fala? Isso nos ajuda a investigar as origens sociais das desigualdades, o que faz com que esses grupos sejam categorizados como outro. 


    E nos ajuda a compreender que, dentro das estruturas de dominação, se essas estruturas são capitalistas, racistas e sexistas, não tem como pensarmos essas categorias do outro por uma perspectiva universal. 


    Foi o que aconteceu durante muito tempo. Ao cunhar a categoria “mulher”, sem entender todos esses atravessamentos, o feminismo hegemônico acaba universalizando a partir da realidade da mulher branca. Da mesma forma, nos estudos de teoria racial crítica, os homens negros vão estudar a partir da categoria homem negro, universalizando a categoria negro. 


    Então, as feministas negras defendem que é fundamental pensar em interseccionalidade, pensar esses atravessamentos. É preciso tornar visível as diferenças, as diferentes formas de experimentar o racismo ou o sexismo. Então o lugar de fala também é uma discussão para visibilizar essas categorias. 

    Qual a importância da interseccionalidade? 

    Djamila Ribeiro: No artigo “Nossos Feminismos Revisitados”, Luiza Bairros trata sobre o entrecruzamento e simultaneidade das opressões de raça e gênero que colocam a mulher negra na base da pirâmide social. 


    Uma mulher negra pode, num determinado momento, sofrer racismo de um homem branco e, no mesmo dia, pode sofrer machismo vindo de homens negros. Todas essas opressões estão acontecendo simultaneamente e não hierarquicamente. 


    Pensar o lugar de fala também é evidenciar que não tem como pensar as opressões de maneiras isoladas. É aí que falamos de interseccionalidade, que é fundamental para nomear realidades. 


    Se não nomeamos uma realidade, ela permanece invisível. E como vamos pensar em saídas emancipatórias para uma realidade que está invisível? É impossível. Eu preciso nomear essas experiências, torná-las visíveis para, inclusive, demandar políticas públicas. 


    Um exemplo prático disso é a Lei Maria da Penha, que completou 10 anos em 2016. O estudo Mapa da Violência mostrou que, nessa primeira década da lei, o número de assassinatos de mulheres brancas havia diminuído 10%, mas no mesmo período aumentou em 55% o número de assassinatos de mulheres negras. 


    O que essa pesquisa nos traz para refletir? Que provavelmente faltou um olhar étnico racial na hora de pensar essas políticas. Eu preciso entender a realidade das mulheres negras para pensar uma política que dê conta de atendê-las. 


    Para a mulher negra, não basta só dizer: “Denuncie”. Essas mulheres, muitas vezes, vivem em periferias, enquanto os centros de referência de apoio à mulher ficam no centro da cidade. Elas também não podem chamar a polícia dentro dos seus territórios, porque a mesma polícia acumula números altíssimos de violência letal contra jovens negros, contra os seus filhos. 


    Então é importante entender todas essas realidades para dar conta de pensar uma política que atinja essas mulheres. 

    Como as redes sociais impactam o debate sobre lugar de fala?

    Djamila Ribeiro: Elas contribuem inegavelmente se soubermos como usar, se tivermos estratégias, se propusermos o debate com responsabilidade e dividirmos conhecimento. 


    Mas sabemos que vivemos em um momento de financiamento de fake news e que as plataformas não se responsabilizam por discursos de ódio. Então há uma série de implicações que precisamos refletir sobre as redes sociais. 


    Em 2021, eu e algumas organizações do movimento negro entramos com uma ação no Ministério Público Federal contra o Twitter, sob o argumento de exploração econômica do racismo e da misoginia. 


    As mulheres negras são o grupo que mais sofre discurso de ódio nessa rede social e entendíamos que era importante que essa empresa melhorasse a sua forma de verificação, que não permitisse determinados discursos, que alterasse o seu algoritmo. 


    As redes sociais são empresas que monetizam discursos de ódio, por isso a importância do debate da regulamentação, porque muitas coisas acabam acontecendo nesses espaços por falta de dispositivos legais. 


    Enquanto sociedade civil, precisamos nos mobilizar para que essas plataformas se responsabilizem e cessem de seguir lucrando com ódio. E esse ódio é contra as mulheres, sobretudo. Há uma exploração econômica da misoginia, que precisa ser debatida. 

    Por Olivia Baldissera

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