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Saúde Mental e Neurociência

À procura de um propósito? Conheça a Logoterapia

Por Olívia Baldissera   | 

Você já passou por situações em que sentiu um vazio, como se não houvesse sentido para o que estava fazendo?

Esse sentimento é estudado pela Logoterapia, que tem como foco a busca pelo sentido da vida. Desenvolvida pelo psiquiatra Viktor Frankl, a abordagem terapêutica é praticada em hospitais, clínicas e consultórios há décadas, inclusive no Brasil. O país conta com 8 associações e institutos de pesquisa creditados como membros da Associação Internacional de Logoterapia e Análise Existencial.

A seguir, você vai conhecer a proposta da Logoterapia, o que essa abordagem considera como sentido da vida e as principais técnicas usadas por psicólogos que seguem as ideias de Frankl.

ATENÇÃO: este conteúdo tem caráter informativo e não oferece diagnósticos. Todo processo psicoterapêutico deve ser conduzido por um profissional.

Confira:
O que é a Logoterapia
Os 3 pilares da logoterapia
Quem foi Viktor Emil Frankl, criador da Logoterapia
O conceito de sentido da vida na Logoterapia
Técnicas da Logoterapia

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O que é a Logoterapia

A Logoterapia ou Análise Existencial (LTEA) é uma abordagem da psicologia clínica que tem como foco a busca pelo sentido, considerada a principal motivação de todos os seres humanos. Tem reconhecimento internacional e se baseia em dados empíricos, sem estar associada a uma doutrina religiosa específica.

A mais antiga associação profissional e científica de psicologia, a American Psychological Associaton (APA), reconhece a Logoterapia como uma abordagem de psicoterapia, definindo-a como:

A Logoterapia é uma abordagem da psicoterapia que foca no “dilema humano”, ajudando o cliente a superar crises existenciais. O processo terapêutico geralmente consiste em examinar três tipos de valores: (a) criativo (ex.: trabalho, conquistas), (b) experiencial (ex.: artes, ciência, filosofia, compreensão, amor) e (c) atitudinal (ex.: lidar com dor e sofrimento). Cada cliente é encorajado a encontrar a própria solução, o que também deve incorporar responsabilidade social e relacionamentos construtivos.

A Logoterapia tem como bases filosóficas:

  • Fenomenologia: estudo dos fenômenos em si mesmos, tais como se apresentam à consciência. O objetivo é apreender o entendimento de mundo de cada pessoa, sem preconceitos, suposições e generalizações;
  • Humanismo: perspectiva que coloca seres humanos como elementos principais em uma escala de importância;
  • Existencialismo: estudo do problema da existência humana, a partir da experiência vivida por cada pessoa.

A Análise Existencial acompanha o nome da abordagem por compor o seu processo psicoterapêutico. Ela consiste na reflexão sobre a existência, considerando a autorresponsabilidade e autorrealização do indivíduo.

Os estudiosos da Logoterapia dividem a Análise Existencial em duas categorias:

  1. Análise Existencial Geral: a busca por propósito é discutida e identificada como a motivação principal dos seres humanos. Reúne argumentos que demonstram a possibilidade de se encontrar um sentido na vida;
  2. Análise Existencial Especial: trata de questões específicas da vida de um indivíduo ou de um grupo que podem levar a transtornos de saúde mental. Nessa categoria, a Logoterapia ajuda a lidar com problemas existenciais concretos.

Independentemente da categoria, o papel de psicoterapeutas nessa abordagem é mediar a busca das pessoas por um propósito específico e individual. Eles não devem julgá-las nem as persuadir a tomarem uma decisão.

A Logoterapia também é conhecida como Terceira Escola Vienense de Psicoterapia pelo impacto das ideias de seu criador, o psiquiatra e professor da Universidade de Viena Viktor Frankl (1905-1997). A abordagem sucedeu a da Psicologia Individual, do psicólogo Alfred Adler (1870-1937), e a da Psicanálise, de Sigmund Freud (1856-1939).

Os 3 pilares da logoterapia

A Logoterapia parte de 3 conceitos filosóficos e psicológicos: a liberdade da vontade, a vontade de sentido e o sentido da vida.

1. Liberdade da vontade

A definição de liberdade para a Logoterapia é o espaço que um indivíduo tem para moldar a própria vida, dentro dos limites do seu contexto socioeconômico e cultural.

Essa liberdade vem da dimensão espiritual de cada pessoa, entendida como algo que está acima do corpo físico e da psiquê. A dimensão espiritual é essencialmente humana, ou seja, é o que nos diferencia dos demais seres vivos.

Nesse sentido, todo ser humano é livre para decidir e capaz de agir em relação a condições psicológicas, biológicas e sociais. Não somos organismos que apenas reagem ao que acontece ao nosso redor, mas seres autônomos capazes de alterar nossas vidas de maneira ativa.

A liberdade da vontade na Logoterapia é o que possibilita pacientes a tomarem decisões apesar dos impactos dos transtornos mentais em seu dia a dia.

2. Vontade de sentido

Todo ser humano é livre para alcançar seus objetivos e propósito, o que seria a motivação primária de nossa existência.

Por isso, quando alguém não consegue perceber a “vontade de sentido” em sua vida, é comum experienciar uma sensação de vazio existencial – o que pode prejudicar a saúde mental.

A Logoterapia atua para auxiliar pacientes a entenderem o que os impede de encontrar um sentido da vida, além de auxiliar a identificarem seus propósitos. Estes devem ser percebidos pelos próprios pacientes, por meio do diálogo com o psicoterapeuta.

3. Sentido da vida

Na abordagem da Logoterapia, o propósito de um indivíduo faz parte da realidade objetiva. Não é algo ilusório, divino nem generalizante, como pode parecer quando ouvimos a pergunta “qual é o sentido da vida?”.

Toda pessoa sente-se inspirada a oferecer o que tem de melhor para a sociedade, por meio da percepção do significado de diferentes momentos da vida. O propósito não é imutável, alterando-se de acordo com as situações enfrentadas por cada indivíduo.

Nas sessões de Análise Existencial, os pacientes trabalham habilidades socioemocionais como flexibilidade e resiliência. Elas vão ajudá-los a lidar com questões do dia a dia, sem perder de vista seu propósito.

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Quem foi Viktor Emil Frankl, criador da Logoterapia

O fundador da Logoterapia, Viktor Frankl, em 1965. Créditos: Prof. Dr. Franz Vesely/Wikimedia Commons CC BY-SA 3.0 DE.O fundador da Logoterapia, Viktor Frankl, em 1965. Prof. Dr. Franz Vesely/Wikimedia Commons CC BY-SA 3.0 DE.

Viktor Emil Frankl foi psiquiatra, neurologista e professor da Universidade de Viena. Seu livro mais famoso sobre a Logoterapia foi publicado após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945): “Em Busca de Sentido” (1946).

Na obra, Frankl narrou suas experiências como o prisioneiro número 119.104 em Auschwitz, o mais conhecido campo de concentração nazista. Durante esse evento traumático, o psiquiatra refletiu sobre temas como morte, finitude, temporalidade e sentido da vida. Ele concluiu que ter um propósito era um fator importante para a sobrevivência dos prisioneiros.

Mas o fundador da Logoterapia já lidava com questões existenciais antes de passar pelos campos de concentração. Nascido em Viena, em uma família de cultura judaica, Frankl questionava-se sobre o sentido da vida já na adolescência, quando proferiu uma conferência sobre o assunto na Universidade Popular da capital.

A primeira menção à expressão “Logoterapia” aconteceu em 1926, em uma conferência em Berlim. A ideia de Análise Existencial viria em 1933, no artigo “Philosophy and Psychotherapy: on the Foundation of an Existential Analysis”, com o desenvolvimento de uma prática terapêutica preventiva para ajudar os jovens austríacos a lidarem com os impactos da crise econômica pós-Primeira Guerra.

Ao longo de sua carreira, entrou em contato com as ideias dos filósofos Max Scheler, Kal Jaspers, Martin Heidegger, Ludwig Binswanger e Martin Buber. A perspectiva da antropologia filosófica contribuiu para delinear a abordagem psicoterapêutica de Frankl.

Fora da academia, Frankl atuou em centros de aconselhamento para adolescentes e no hospital psiquiátrico de Viena. Em 1937, abriu um consultório de neurologia e psiquiatria. Seria deportado para um campo de concentração cinco anos depois, junto com a família.

Após a Segunda Guerra, ocupou por 25 anos o cargo de diretor da Policlínica Neurológica de Viena. Em 1949 se tornou professor de Neurologia e Psiquiatria da Universidade de Viena e, a partir de então, dedicou-se à docência.

Viktor Frankl faleceu em 2 de setembro de 1997, aos 92 anos. O Viktor Frankl Institut, de Viena, contabiliza 43 livros escritos pelo psiquiatra ao longo da vida.

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O conceito de sentido da vida na Logoterapia

Já falamos do sentido da vida como um dos pilares da Logoterapia. Agora vamos detalhar mais esse conceito.

O sentido da vida se expressa na relação de um indivíduo com o mundo. Toda pessoa busca um propósito para sua existência ao interagir com a realidade, processo que também constitui a experiência de ter um sentido.

Por isso somos capazes de questionar nossa própria existência e procurar um significado para ela. A possibilidade de ver a si mesmo é o que nos dá uma dimensão noética do ser humano, que tem consciência e uma espiritualidade a ser desenvolvida.

Em outras palavras, é com a busca pelo sentido da vida que conseguimos interpretar e lidar com a realidade, com o mundo exterior.

Do ponto de vista da Logoterapia, é o sentido da vida que nos torna humanos. Uma pessoa só se faz humana quando se dedica a uma determinada tarefa, a um propósito, não se concentrando apenas em si mesma ou prestando um serviço para outras pessoas.

Para Viktor Frankl, a sensação da falta de um sentido da vida, o “vazio”, é uma prova da humanidade de uma pessoa. Isso não significa que o vazio existencial seja uma doença ou um transtorno.

>>> O modelo PERMA e a relação com o bem-estar

Técnicas da Logoterapia

A Logoterapia oferece uma série de técnicas para o processo de psicoterapia. As mais conhecidas são a derreflexão, a intenção paradoxal e o diálogo socrático.

Mas se você quiser conhecer mais técnicas dessa abordagem, o curso Inteligência Espiritual, Carreira e Sentido da Vida da Pós PUCPR Digital oferece um módulo dedicado à Logoterapia.

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Confira a seguir as características das 3 principais técnicas da Logoterapia, de acordo com o Dicionário de Psicologia da APA.

1. Derreflexão

Indicada para pessoas que estão em um estado de auto-observação excessivo, pensando de forma obsessiva em um problema ou situação. Esse fenômeno é conhecido como ruminação na Psicologia.

A derreflexão consiste em desviar a atenção do paciente de si mesmo para um assunto diferente, geralmente relacionado a algo mais importante no contexto da sua vida futuro. O objetivo é interromper o ciclo retroalimentado pela hiperintenção (busca exagerada) e pela hiper-reflexão (atenção exagerada).

2. Intenção paradoxal

O paciente é orientado a imaginar uma situação estressora de forma exagerada, dando um aspecto cômico à cena. Assim ele se distancia dos sintomas associados a esse momento e, aos poucos, percebe que as consequências catastróficas de que tem tanto medo dificilmente vão acontecer.

A intenção paradoxal foi desenvolvida por Viktor Frankl, originalmente, para o tratamento de fobias. Hoje é indicada para transtornos de ansiedade de forma geral.

3. Diálogo socrático

Também chamada de “modificação de atitudes”, a última técnica da Logoterapia se baseia na investigação de conceitos e valores que norteiam as atividades e os julgamentos do paciente. Isso é feito por meio do diálogo entre duas ou mais pessoas.

Há situações em que o psicólogo faz perguntas estratégicas para ajudar o paciente a entender as próprias crenças e sentimentos. No caso da terapia cognitiva, as questões servem para identificar distorções nas interpretações que o paciente tem sobre determinadas situações.


💡Quer aprender ainda mais sobre Logoterapia? Confira uma lista de livros de Viktor Frankl e as fontes consultadas para este conteúdo do Blog da Pós PUCPR Digital:

  • ANDRADE, Cristiano de Jesus. Viktor Frankl: o sentido da Logoterapia e sua atualidade contextual. Psicólogo inFormação, São Bernardo do Campo, v. 21, n. 21-22, p. 99-114, jan./dez. 2017. Disponível em <https://www.metodista.br/revistas/revistas-metodista/index.php/PINFOR/article/view/9178>. Acesso em 14 set. 2022.
  • AQUINO, Thiago Avellar. Viktor Frankl: para além de suas memórias. Revista da Abordagem Gestáltica, Goiânia, v. 26, n.2, p. 232- 240, mai./ago. 2020. Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672020000200011>. Acesso em 14 set. 2022.
  • AQUINO, Thiago Avellar et al. Logoterapia no contexto da psicologia: reflexões acerca da análise existencial de Viktor Frankl como uma modalidade de psicoterapia. Logos & Existência, João Pessoa, v. 4, n. 1, p. 45-65, abr. 2015. Disponível em <https://periodicos.ufpb.br/index.php/le/article/view/22840>. Acesso em 14 set. 2022.
  • BATTHYÁNY, Alexander. What is Logotherapy / Existential Analysis? Viktor Frankl Institut, 12 set. 2018. Disponível em <https://www.viktorfrankl.org/logotherapy.html>. Acesso em 14 set. 2022.
  • FRANKL, Viktor. A Vontade de Sentido: Fundamentos e Aplicações da Logoterapia. Trad. de Ivo Studart Pereira. São Paulo: Paulus, 2021.
  • FRANKL, Viktor. Um Sentido para a Vida: Psicoterapia e Humanismo. São Paulo: Editora Ideias e Letras, 2014.
  • FRANKL, Viktor. O Homem em Busca de um Sentido. Trad. de Francisco J. Gonçalves. Alfragide: Lua de Papel, 2012.

Sobre o autor

Olívia Baldissera

Olívia Baldissera

Jornalista e historiadora. É analista de conteúdo da Pós PUCPR Digital.

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